Quase toda ideia importante que a gente carrega é, no fundo, uma afirmação de causa. Quando alguém diz "pensamento positivo muda a realidade", "acordar cedo deixa a pessoa rica", "quem faz o bem recebe o bem de volta" ou "essa promoção fez minha loja vender mais", todas essas frases estão dizendo a mesma coisa: que uma coisa produz a outra. E é bem aí, nesse pulo de "eu vi as duas coisas juntas" para "então uma causou a outra", que mora a maior parte dos erros que a gente comete sobre o mundo.
Este texto fecha uma conversa de três partes. Em Como saber se uma ideia é verdadeira eu ofereci o prumo, um jeito de testar qualquer ideia. Em Os vieses que fazem você acreditar em coisas erradas mostrei como a sua própria cabeça distorce a prova sem você perceber. Agora vem a parte mais útil no dia a dia: como saber, de verdade, se uma coisa causou a outra, ou se você só viu as duas andando de mãos dadas por acaso. É o que separa uma boa decisão de uma superstição cara.
Duas coisas andam juntas. E daí?
Vou começar com o caso mais famoso, porque ele ensina tudo de uma vez.
Alguém percebe que, nos meses em que a sorveteria vende mais, também morre mais gente afogada. Os dois números sobem juntos, mês após mês. Um apressado concluiria: sorvete faz mal, deixa a pessoa tonta na água. Mas você já sacou o que está acontecendo. Não é o sorvete. É o verão. No calor, as pessoas comem mais sorvete e também vão mais para a praia e a piscina, onde ocorrem os afogamentos. Existe uma terceira coisa, o verão, causando as duas ao mesmo tempo.
Guarde essa cena, porque ela mostra a regra geral. Toda vez que você vê duas coisas caminhando juntas, existem quatro explicações possíveis, e não uma só. A maioria das pessoas enxerga apenas a primeira e para por aí.
A primeira explicação é a óbvia: a primeira coisa causa a segunda. É para onde a cabeça corre sozinha.
A segunda é a seta invertida: pode ser o contrário do que você pensou. Por exemplo, dizem que quem faz terapia é mais ansioso. Alguém poderia concluir que terapia deixa a pessoa ansiosa. Mas é o contrário: são justamente as pessoas mais ansiosas que procuram terapia. A causa e o efeito estão trocados de lugar. Outro exemplo: "os vendedores que mais reclamam da meta são os que menos vendem". Será que reclamar atrapalha a venda? Ou será que quem vende pouco tem mais motivo para reclamar? A mesma cena aceita as duas leituras.
A terceira é a terceira coisa por trás, o nosso verão do sorvete. Exemplo de empresa: "as filiais que têm mesa de sinuca na copa vendem mais". Ninguém compra mais por causa da sinuca. É que as filiais maiores e mais lucrativas têm dinheiro para pôr uma sinuca na copa. O tamanho da filial causa as duas coisas. Exemplo de família: "criança que tem muitos livros em casa vai melhor na escola". Não é o livro no armário que ensina. É que pais que compram livros também leem com o filho, ajudam na lição e valorizam estudo. O ambiente inteiro é a causa, não o objeto.
A quarta é o puro acaso. Como vimos no artigo anterior, coincidência impressionante não é rara, é obrigatória. Se você olhar dados suficientes, sempre vai achar duas linhas que sobem juntas sem terem nada a ver. Já mostraram, de brincadeira, que o consumo de queijo nos Estados Unidos acompanha o número de pessoas que morreram enroladas no lençol. Ninguém acredita que uma coisa causa a outra. É só o acaso fazendo o que ele sempre faz quando há muitos números na mesa.
Um exemplo final junta tudo e é sério, porque muita gente acredita nele. Você já deve ter ouvido que quem toma uma tacinha de vinho por dia vive mais do que quem não bebe nada. A leitura fácil é que o vinho protege o coração. Mas pense nos quatro caminhos. Quem está no grupo dos que "não bebem nada"? Entra ali muito ex-alcoólatra e muita gente que parou de beber porque adoeceu, ou seja, gente já com a saúde ruim. E quem bebe uma tacinha por dia costuma ter mais dinheiro, come melhor, vai mais ao médico e tem mais vida social. Repare: pode não ser o vinho fazendo bem. Pode ser que o grupo do vinho já era mais saudável por mil outros motivos. A explicação simples ("o vinho protege") é sempre a mais bonita, e as outras três só aparecem se a gente se obrigar a procurar.
O único jeito de ter certeza: intervir
Se só observar não basta, o que basta? Fazer o teste você mesmo, no lugar de só olhar o que já aconteceu.
Vou deixar concreto. Imagine que você é dono de uma rede de padarias e alguém te diz: "colocar o pão quentinho na vitrine da frente faz vender mais". Pode ser verdade, pode ser conversa. Como saber de verdade?
O jeito errado é olhar o passado: "mês passado a gente pôs o pão na frente e vendeu mais". Não vale, porque mil outras coisas mudaram no mês (o clima, o feriado, a propaganda do concorrente). O jeito certo é fazer um teste de verdade. Pegue vinte lojas parecidas e sorteie: em dez, o pão vai para a vitrine da frente; nas outras dez, fica onde estava. Espere um mês e compare.
Por que sortear é tão poderoso? Porque quando você separa as lojas no sorteio, no cara ou coroa, todas as diferenças entre elas se espalham por igual dos dois lados. Lojas grandes e pequenas, de bairro rico e de bairro pobre, de gerente bom e de gerente ruim, tudo cai mais ou menos metade de cada lado. Aí, se as dez lojas do pão na frente venderem mais, sobra só uma diferença entre os dois grupos: o pão na vitrine. O sorteio é o que dá conta até dos fatores que você nem sabia que existiam. Nenhum outro método faz isso.
Junte a esse sorteio mais duas peças, e você tem o padrão-ouro de qualquer teste sério.
A primeira peça é o grupo de comparação, as lojas que continuaram como estavam. Sem elas, você não sabe o que teria acontecido de qualquer jeito. Isso é mais importante do que parece, porque muita coisa melhora sozinha. A dor nas costas passa. A gripe sara. O mês fraco vira mês bom. Tem até nome para essa armadilha: as coisas tendem a voltar para a média. A pessoa procura o médico, o pai de santo ou o consultor no pior momento, e do fundo do poço o caminho mais provável é para cima, com ou sem ajuda. Quem cobrou pela solução leva o crédito de uma melhora que ia acontecer de todo jeito. É por isso que o dono da padaria precisa das dez lojas de comparação: talvez o mês tenha sido bom para todas, pão na frente ou não.
A segunda peça é não contar para ninguém quem recebeu o quê, nem para quem participa, nem para quem mede. Se o gerente sabe que a loja dele foi escolhida para o teste do pão, ele se esforça mais, arruma a vitrine, sorri para o cliente, e aí você não sabe mais se foi o pão ou o capricho. E se você, dono, já torce pela ideia, corre o risco de olhar os números com o olho gordo e enxergar sucesso onde não teve. Por isso, no teste bem feito, ninguém sabe quem está em qual grupo até o fim.
O placebo e o poder real da mente
Agora chega a parte que interessa a quem acredita que a mente influencia o mundo. E ela é mais sutil do que os dois lados costumam admitir.
O efeito placebo é real e impressionante. Uma pílula de farinha, sem nenhum remédio dentro, consegue diminuir a dor de gente de verdade, e dá para medir isso. Tem um caso que chega a ser engraçado: pesquisadores deram a pílula de farinha avisando na cara do paciente "isto aqui é só farinha, não tem remédio nenhum", e mesmo assim uma parte melhorou. Só o ato de se cuidar, de tomar algo num horário, de sentir que está fazendo alguma coisa, já produz efeito.
Mas preste atenção em onde o placebo funciona, porque é exatamente aqui que passa a linha entre uma verdade e um exagero. O placebo age sobre o que é sentido: dor, enjoo, cansaço, ansiedade, a sensação de que dormiu melhor. Tudo isso passa pela cabeça e pelo sistema nervoso, então a expectativa mexe de verdade. O placebo não age sobre o que é físico e medido por fora: ele não diminui um tumor, não abaixa o colesterol, não cola um osso quebrado, não expulsa um vírus do sangue. Nenhuma dose de fé no comprimido de farinha fecha uma fratura.
A mente tem poder real, e é maior do que muita gente cética admite. Mas é poder sobre o que você sente, não poder sobre a matéria à distância.
É a mesma ideia do primeiro artigo. O que você sente é um dado verdadeiro sobre você, e é só uma hipótese sobre o mundo lá fora. Visualizar uma meta ajuda, sim, mas porque muda o seu comportamento, faz você treinar, ligar para o cliente, insistir. Não porque a realidade se dobra ao seu desejo por vontade própria.
"Tem estudos que comprovam"
Essa é a frase mais vazia da internet. Existe estudo para provar quase tudo, e o oposto também. O que separa um estudo sério de um barulho qualquer é a força dele. Pense numa escadinha, do degrau mais fraco ao mais forte.
No degrau mais baixo está o caso isolado: "aconteceu com o meu primo". Serve de pista para investigar, nunca de prova. No degrau seguinte está o estudo que só observa, do tipo "vimos que quem faz X tem mais Y", que sofre de todos aqueles quatro problemas do sorvete. Mais acima está o teste com sorteio, como o das padarias, onde a evidência começa a ficar séria. E no topo está a revisão que junta todos os testes já feitos sobre o assunto, inclusive os que deram errado, para ver o que resta quando se olha tudo de uma vez.
Além de saber em que degrau o estudo está, três perguntas simples separam quem entende de quem só repete manchete.
A primeira: de quanto foi o efeito? Ouvir que "o remédio funcionou" não diz nada. Funcionou quanto? Um exemplo: um suplemento pode "comprovadamente ajudar a emagrecer" e, quando você lê os números, descobrir que a diferença foi de duzentos gramas em três meses. É verdade e é inútil ao mesmo tempo. Sempre pergunte o tamanho da diferença, não só se ela existe.
A segunda: alguém repetiu e deu o mesmo resultado? Um estudo sozinho é como uma testemunha só. Pode estar certa, pode ter se enganado. Já teve um grande esforço de refazer cem estudos famosos de psicologia, e menos da metade se sustentou na segunda vez. Não é golpe, na maioria dos casos. É que, quando muita gente testa muita coisa, sempre aparece um resultado bonito por sorte, e é justamente esse que vira notícia. Um resultado só é uma pista. Resultado que se repete é conhecimento.
A terceira: a pessoa disse o que ia achar antes de olhar os dados, ou foi garimpando até achar algo? Se você mexe nos números de mil formas diferentes, uma hora acha um resultado "impressionante" que é só coincidência. Por isso os bons pesquisadores hoje anunciam antes o que vão testar e como, e só então coletam. É exatamente o caderno de previsões que propus no artigo passado: quem se compromete antes não pode se enganar depois escolhendo a explicação que der mais jeito.
Trazendo para o que é seu
Vou aplicar tudo isso a uma crença que muita gente tem: "quem faz o bem recebe o bem de volta". Repare que ela tem duas versões bem diferentes, e vale separar as duas antes de brigar por elas.
A versão forte é a espiritual: existe uma espécie de lei do universo que devolve a cada um, cedo ou tarde, o que ele fez, talvez até em outra vida. Faça a pergunta do primeiro artigo, a que testa qualquer ideia: o que poderia provar que ela está errada? Se a pessoa boa prospera, a lei se confirma; se a pessoa boa sofre, dizem que a recompensa "ainda vai vir" ou que era conta de vida passada. Ou seja, nada consegue contrariar essa crença. Isso não a torna mentira. Torna-a uma questão de fé, e não de fato. Você tem todo o direito de acreditar nela, desde que a chame pelo nome certo e não a apresente como algo comprovado.
A versão fraca é bem terrena: quem trata as pessoas com generosidade e honestidade tende, com o tempo, a acumular amizades, boa fama e oportunidades que voltam em seu favor. Essa é uma afirmação testável, e a resposta é interessante: depende de o ambiente ter memória. Numa cidade pequena, num bairro, numa rede de contatos onde todo mundo se reencontra, ser confiável compensa muito, porque a sua fama anda com você. Já num lugar de passagem, onde você nunca mais vê ninguém, o cara que passa a perna às vezes leva vantagem no curto prazo. A versão fraca é a que você pode ensinar a um filho com honestidade. A forte é a que você pode viver, desde que a apresente como fé.
Um exercício para esta semana
Escolha uma relação de causa em que você acredita e teste com o que aprendeu aqui. Vou fazer um exemplo completo primeiro, para você ver como funciona, e depois é a sua vez.
Digamos que a sua crença seja: "contratar gente por indicação de funcionário dá mais certo do que contratar por anúncio". Agora escreva as quatro explicações:
- A indicação causa o bom desempenho (é como eu penso hoje: quem é indicado se esforça mais para não decepcionar quem indicou).
- A seta invertida: será que não é o contrário? Talvez os seus melhores funcionários, que já são bons, sejam os únicos que indicam alguém, e eles indicam gente parecida com eles. O bom já estava ali antes.
- Uma terceira coisa por trás: talvez você trate com mais carinho o indicado, apresente melhor a empresa, tenha mais paciência no começo. O seu próprio cuidado, e não a indicação, é que faz a pessoa render.
- Acaso: quantos casos você viu de verdade? Dois ou três indicados que deram certo? Isso é pouco para virar uma regra.
Feito isso, faça a última pergunta: existiria um teste capaz de separar essas explicações? No caso, sim: sortear as próximas vinte contratações entre indicação e anúncio e comparar o desempenho um ano depois. Talvez você nunca faça esse teste, e tudo bem. Só de imaginá-lo, você já enxerga na hora o que sabe de verdade e o que só está supondo.
Agora faça o mesmo com uma crença sua. Pode ser de negócio, pode ser sobre você ("acordar às cinco me deixa mais produtivo"), pode ser espiritual. Escreva as quatro explicações e imagine o teste. Só esse exercício já muda a forma como você decide.
Duas ressalvas honestas
Para fechar, dois avisos, porque este artigo pode virar uma arma cega na mão errada.
O primeiro: nem tudo dá para sortear, e isso não significa que a gente não sabe nada. Nunca alguém sorteou pessoas para fumar por trinta anos e ver quem tinha câncer, seria um crime. E, mesmo assim, ninguém sério duvida de que o cigarro causa câncer. Como é que se sabe, então, sem o tal sorteio? Porque várias pistas apontam para o mesmo lugar ao mesmo tempo: a ligação é muito forte, aparece em país após país, o cigarro vem sempre antes da doença, quem fuma mais adoece mais, e existe um mecanismo que explica o porquê. Quando muitas evidências diferentes se encontram, dá para concluir causa mesmo sem experimento. Falta de sorteio não é falta de prova. É só um pedido de mais cuidado na análise.
O segundo: tem assuntos que essa ferramenta toda nem alcança. Se vale a pena perdoar alguém, o que é uma vida boa, se existe um sentido maior nas coisas, nada disso se resolve com grupo de comparação e planilha. Querer prova de laboratório para tudo é um erro que também tem nome: achar que só existe o que a ciência mede. A ciência é ótima para responder como as coisas são e funcionam. Ela não responde, sozinha, o que você deve fazer com a sua vida. Saber onde a ferramenta serve, e onde ela se cala, é parte de saber usá-la bem.
Se quiser ir além
- Judea Pearl, O Livro do Porquê. O autor que reorganizou o estudo da causa. Tem partes difíceis, mas os primeiros capítulos são acessíveis e mudam a sua cabeça.
- Ben Goldacre, Ciência Picareta. Mostra como os estudos são distorcidos na propaganda e na imprensa. Divertido e afiado.
- Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios. O capítulo do "kit de detecção de mentiras" conversa direto com tudo o que vimos aqui, em linguagem simples.
Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.
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