Se eu te perguntar por que você acredita em algo importante, uma hora vai aparecer a frase: "porque eu vivi isso". Faz todo sentido. A experiência própria parece a evidência mais sólida do mundo. Você não leu num livro nem ouviu de terceiro. Você estava lá, sentiu, viu acontecer.
Só que existe uma notícia desconfortável. A experiência pessoal, embora seja a prova que parece mais forte, é a que mais facilmente se corrompe. E o pior: ela se corrompe por dentro, sem deixar rastro. Você não sente quando acontece, e ela continua parecendo firme, inteira, confiável.
Isso não é defeito seu. É como todo cérebro humano funciona, do mais brilhante ao mais tolo, o meu e o seu. Este texto é a continuação de Como saber se uma ideia é verdadeira: lá eu ofereci quatro ferramentas para testar uma ideia; aqui eu mostro, por dentro, os quatro mecanismos que fazem a gente colecionar certezas erradas sem nunca perceber. Conhecê-los é o primeiro passo para não ser dominado por eles.
Mecanismo 1. O viés de confirmação
Este é o mais conhecido e, ainda assim, o mais subestimado. A gente resume ele como "todo mundo gosta mais do que confirma o que já pensa", mas é mais fundo do que isso. O problema é que a gente procura de forma torta. Buscamos ativamente o que confirma e simplesmente não vamos atrás do que poderia derrubar a nossa ideia.
O experimento que mostra isso melhor é do psicólogo britânico Peter Wason. Ele dava aos participantes a sequência 2, 4, 6 e dizia: "essa sequência segue uma regra que eu tenho na cabeça. Você pode me propor outras sequências, e eu digo se cada uma segue a regra ou não. Descubra qual é a regra."
Quase todo mundo pensava algo como "números pares subindo de dois em dois" e ia testar: 8, 10, 12. Resposta: sim, segue. 20, 22, 24? Sim. 100, 102, 104? Sim. Aí a pessoa anunciava, confiante: "a regra é números pares crescendo de dois em dois."
Errado. A regra era qualquer sequência crescente. 1, 2, 3 servia. 5, 500, 9000 servia. O que quase ninguém fazia era testar uma sequência que não se encaixasse na própria hipótese, justamente a única jogada capaz de revelar o erro. Todos os testes eram tentativas de arrancar mais um "sim". E cada "sim" aumentava a confiança sem aumentar em nada o conhecimento.
Traduzindo para a vida: quando você acredita em algo, sua leitura, suas conversas e o que você repara no dia a dia viram uma máquina de coletar "sim". A cada dia você fica mais convencido. E aqui mora a cilada, porque a sensação de convicção crescente é, por dentro, idêntica à sensação de estar realmente certo. Você não consegue distinguir uma da outra só pelo que sente.
Mecanismo 2. A memória não é gravação, é reconstrução
Aqui a maioria das pessoas se surpreende de verdade.
A gente imagina a memória como um vídeo guardado numa gaveta: é só abrir e assistir de novo. Não é isso. Toda vez que você lembra de alguma coisa, seu cérebro remonta a cena a partir de pedaços soltos e preenche as lacunas com o que faz sentido agora, com o que você acredita hoje, com o clima emocional do momento em que está lembrando. Depois guarda de volta a versão remontada. Ou seja, a memória se reescreve a cada acesso. E as lembranças que você mais revisita são, por isso mesmo, as mais editadas.
Duas evidências valem a pena conhecer.
A psicóloga Elizabeth Loftus mostrou a um grupo de pessoas o vídeo de um acidente de carro. Para uma parte, perguntou "a que velocidade os carros estavam quando bateram?". Para a outra, trocou uma palavra: "quando se chocaram violentamente?". O segundo grupo estimou velocidades maiores. E, uma semana depois, uma parte dessas pessoas lembrava de vidro quebrado na cena. Não havia vidro quebrado nenhum. A palavra escolhida na pergunta plantou uma memória que nunca existiu.
O psicólogo Ulric Neisser aproveitou a explosão do ônibus espacial Challenger, em 1986. No dia seguinte, pediu a um grupo de estudantes que escrevesse exatamente onde estava e como ficou sabendo. Dois anos e meio depois, pediu de novo. Muitos relatos estavam bem diferentes do original, e o detalhe que importa é este: as pessoas tinham altíssima confiança nas versões erradas. Algumas, ao verem o próprio papel escrito à mão dois anos antes, insistiram que a lembrança de agora é que estava certa e que o papel devia estar errado.
Confiança na lembrança não mede exatidão da lembrança. São duas coisas independentes.
A experiência marcante que você guarda há vinte anos, e conta há vinte anos, já não é o evento. É a última versão de uma história que você reescreveu dezenas de vezes.
Mecanismo 3. A caça a padrões e o filtro invisível
O cérebro humano é uma máquina extraordinária de achar padrão. Foi isso que nos manteve vivos: quem confundia o barulho do vento com um predador só perdia tempo; quem confundia um predador com o vento, morria. Então evoluímos para errar para o lado de ver padrão demais, porque esse erro saía barato. O custo é que enxergamos padrão até onde só existe acaso. Dois casos ilustram bem.
O primeiro é a matemática da coincidência. O matemático John Littlewood fez uma conta simples. Se você fica desperto e atento umas oito horas por dia, e a cada segundo passa por algum evento perceptível, você processa cerca de um milhão de eventos por mês. Logo, um evento com chance de um em um milhão deveria acontecer com você mais ou menos uma vez por mês. Coincidências espantosas não são raras: elas são estatisticamente obrigatórias. Pensar numa pessoa e ela ligar em seguida não precisa de explicação sobrenatural. O que precisaria de explicação seria a ausência total desse tipo de coincidência ao longo da vida.
O segundo é o viés do sobrevivente. Na Segunda Guerra, os militares americanos examinavam os bombardeiros que voltavam das missões, mapeavam onde havia mais furos de bala e queriam reforçar a blindagem justamente nessas áreas. O estatístico Abraham Wald apontou o erro. Aqueles aviões voltaram. Os furos que eles exibiam eram, por definição, os furos em que dava para sobreviver. A blindagem tinha que ir onde os aviões que voltavam não tinham furo nenhum, porque quem levava tiro ali não voltava para ser contado.
Traduzindo: toda vez que você avalia uma ideia olhando só para os casos que chegaram até você, está olhando para os aviões que voltaram. Os testemunhos de cura que você ouve, os empresários que deram certo seguindo tal método, as intuições que se confirmaram. Os que falharam simplesmente não são contados, não são publicados e não viram história. O fracasso é silencioso, e o silêncio dele engana.
Mecanismo 4. A narrativa que se forma depois
Depois que algo acontece, a mente reorganiza o passado para que aquilo pareça que era previsível. O nome disso é viés retrospectivo. Você olha para trás e pensa "eu sabia", "os sinais estavam todos lá". E estavam, é verdade, só que junto com dezenas de outros sinais apontando para direções diferentes, que agora sumiram da história porque não deram em nada.
É por isso que toda trajetória de vida contada em retrospecto parece ter um fio condutor claro, um destino. Não porque tinha, mas porque contar uma história exige um fio, e a mente fabrica esse fio sem avisar. O passado organizado que você enxerga hoje é, em boa parte, uma obra do presente.
Juntando os quatro sobre algo que é seu
Agora a parte que interessa. Pegue uma convicção sua de verdade, dessas de que você tem quase certeza. Pode ser a ideia de que a sua intuição acerta, de que você sabe ler pessoas, de que existe um sentido guiando as coisas. Repare como os quatro mecanismos agem juntos ali dentro.
Você repara nas vezes em que a intuição acertou (confirmação). Lembra dessas vezes com mais nitidez e mais drama do que de fato aconteceram (reconstrução). As vezes em que ela errou nunca viraram história e sumiram da conta (sobrevivente). E, depois do fato, o encaixe parece óbvio, como se estivesse escrito (retrospectivo). O resultado é uma coleção de acertos que parece esmagadora, montada por um sistema que guarda os acertos e descarta os erros no automático.
Preste atenção nisto, porque é fácil entender errado: nada disso prova que você está errado. O argumento não é "logo, a sua intuição não vale nada". O argumento é mais modesto e mais duro ao mesmo tempo. A sua contagem pessoal de acertos não serve como prova, porque ela foi produzida por um sistema que conta os acertos e apaga os erros sozinho. A ideia pode até ser verdadeira. Só que a evidência que você acha que tem não é a evidência que você realmente tem.
Um exercício para esta semana
E existe uma saída. É simples, e quase ninguém faz, porque ela expõe a gente.
Arranje um caderno ou uma nota no celular. Toda vez que você tiver uma intuição, um pressentimento, uma sensação forte sobre como algo vai se resolver, escreva antes de saber o resultado. Data, o que você sentiu e o que espera que aconteça. Uma linha basta. Depois é só seguir três regras:
- Anote todas, não só as que parecem importantes. As que você deixa de anotar são exatamente os aviões que não voltaram.
- Seja específico o bastante para dar para conferir depois. "Vai dar tudo certo" não vale. "O cliente tal vai fechar até sexta" vale.
- Não reavalie na hora. Deixe passar um mês e só então volte e marque no que acertou.
Em três meses você vai ter algo que quase nenhum ser humano tem sobre si mesmo: uma taxa real. Se der 30%, você aprendeu uma coisa importante. Se der 80%, você aprendeu uma coisa muito mais interessante, e aí sim tem um dado que merece explicação. De um jeito ou de outro, você sai do território da impressão e entra no do registro. É a única forma honesta de investigar a própria experiência por dentro.
Duas ressalvas honestas
Este artigo pode ser mal usado, então preciso fechar com dois avisos.
O primeiro: conhecer os vieses não protege você deles. A psicóloga Emily Pronin documentou o que chamou de ponto cego do viés. As pessoas reconhecem com facilidade os vieses nos outros e continuam se achando relativamente imunes aos próprios. Ler este texto vai te dar uma ferramenta afiada para desmontar a crença dos outros e quase nenhuma proteção automática para as suas. O antídoto não é saber, é o procedimento. É escrever antes, é registrar, é pedir para alguém que discorda apontar onde você pode estar errado.
O segundo: viés não é sinônimo de mentira. Existe uma armadilha de argumentação chamada falácia genética, que é rejeitar uma ideia por causa da origem dela em vez de examinar o conteúdo. Dizer "você só acredita nisso por viés de confirmação" não refuta nada. Uma pessoa cheia de vieses pode estar certíssima, e uma conclusão pode ser verdadeira mesmo tendo sido alcançada por um caminho ruim. O que os vieses mostram é que o caminho não garante a chegada, não que a chegada seja falsa. A ideia continua tendo que ser julgada pelo próprio mérito, e isso vale inclusive para as ideias deste texto.
Se quiser ir além
- Thomas Gilovich, Como Sabemos o Que Não é Bem Assim. O livro mais direto sobre por que a experiência cotidiana engana. Trata de crenças de todo tipo com seriedade, sem deboche.
- Elizabeth Loftus, sobre memória e testemunho. Vale procurar as entrevistas e palestras dela, que são bem mais acessíveis do que os artigos técnicos.
- Rolf Dobelli, A Arte de Pensar Claramente. Capítulos curtos, um viés por vez. Ótimo para ler aos poucos.
Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.
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