Pare um instante e pense em três coisas que você acredita com força. Pode ser sobre você ("eu não sou bom com dinheiro"), sobre alguém ("meu chefe implica comigo"), sobre a vida ("tudo acontece por um motivo"). Agora responda com honestidade: quando foi a última vez que você olhou para uma dessas certezas e perguntou se ela é mesmo verdade, ou se é só uma coisa que você carrega há tanto tempo que nunca mais parou para conferir?
A maioria das pessoas nunca fez isso. Uma vez sequer. A gente coleciona convicções como quem junta objetos num sótão: entram, se acomodam, e ninguém mais mexe. Só que essas ideias não ficam paradas. Elas decidem com quem você casa, em que você investe, como você cria seus filhos, do que você tem medo. Vale a pena saber se estão certas.
O problema é que "achar que é verdade" e "ser verdade" são coisas diferentes, e o nosso cérebro é péssimo em separar as duas. Ele foi feito para nos manter vivos e confortáveis, não para nos manter corretos. Por isso, antes de discutir qualquer ideia grande, sobre Deus, sobre o amor, sobre o seu próprio caráter, você precisa de um instrumento simples para medir. Um jeito de saber quando está se enganando.
Um pedreiro não escolhe o prumo pela cor. Ele usa o prumo porque ele mostra o que está torto, inclusive nas paredes que ele mesmo levantou. É isso que este texto oferece: um prumo para as suas ideias. Quatro ferramentas, em linguagem de gente, que você pode começar a usar hoje.
Ferramenta 1. Separe o que é fato, o que é leitura e o que é escolha
Boa parte das brigas e das confusões da vida nasce de misturar três tipos de afirmação que exigem provas completamente diferentes.
O primeiro é a afirmação de fato: algo que é verdadeiro ou falso independentemente do que você sente. "Choveu ontem em São Paulo." "Fumar aumenta o risco de câncer." Dá para verificar. Se todo mundo que mede chega ao mesmo resultado, é fato.
O segundo é a afirmação de interpretação: uma leitura, uma explicação para o fato. "Meu casamento acabou porque a gente casou cedo demais." Pode ser uma leitura ótima, pode ser rasa, mas não é verificável do mesmo jeito que a chuva. É uma entre várias explicações possíveis.
O terceiro é a afirmação de valor: uma escolha sobre o que importa. "Vale mais a pena ter tempo do que ter dinheiro." Isso não é verdadeiro nem falso no sentido dos fatos. É uma posição sobre o que você considera bom.
Repare como a vida despeja os três de uma vez, embrulhados numa frase só. Alguém diz: "meu filho é rebelde porque a escola de hoje passa a mão na cabeça". Tem um fato ali (o filho fez isto e aquilo), tem uma interpretação (a causa seria a escola) e tem um valor (passar a mão na cabeça é ruim), tudo grudado, como se fosse uma verdade única e óbvia.
Quando você aprende a separar, algo muda. Você consegue concordar com o fato e discordar da interpretação. Consegue perceber que muitas discussões que você travou na vida, com um parente, com um amigo, no trabalho, não eram sobre fatos. Eram choques de valores disfarçados de debate sobre a realidade. E briga de valor não se ganha com dado; se resolve com respeito, ou não se resolve.
Faça o teste com as suas próprias certezas. Você vai levar um susto ao descobrir quantas coisas que você trata como "fato" são, na verdade, interpretação sua.
Ferramenta 2. A pergunta que separa uma ideia de um dogma
Um filósofo chamado Karl Popper fez a pergunta mais útil que existe para quem quer pensar com honestidade:
"O que precisaria acontecer para eu concluir que estou errado?"
Se você tem uma resposta clara, sua ideia é uma tese, algo que pode ser testado e melhorado. Se você não consegue imaginar absolutamente nada que a faria cair, sua ideia virou um dogma. E não porque seja falsa, mas porque você a colocou fora do alcance da correção. Ela parou de ser uma ideia e virou uma muralha.
O exemplo mais fácil é o do horóscopo. O astrólogo diz que todo Áries é impulsivo. Você apresenta um Áries calmíssimo, o mais tranquilo dos homens. "Ah, mas é a ascendente dele que acalma." Você apresenta outro. "Esse tem Mercúrio retrógrado no mapa." Repare: nenhum caso, jamais, contaria como prova contra a ideia. A teoria explica qualquer resultado, e é exatamente por explicar tudo que ela não explica nada.
Agora traga isso para perto. Suponha que você acredite que "as coisas sempre dão certo no fim". Pergunta honesta: o que contaria como um "não dar certo"? Se toda vez que algo desaba você diz "ainda não chegou o fim", e toda vez que melhora você diz "viu? sempre dá certo", então você construiu uma crença à prova de qualquer realidade. E uma crença à prova de erro é também uma crença à prova de aprendizado.
Isso não destrói a ideia. Só te obriga a formulá-la melhor. E ideia bem formulada é mais forte, não mais fraca.
Ferramenta 3. Verdade tem graus, não interruptor
A gente foi treinado a pensar em ligado ou desligado, verdadeiro ou falso, oito ou oitenta. Mas quase nada que importa na vida funciona assim.
Veja como um bom médico raciocina. Ele não pensa "o paciente tem ou não tem a doença", como quem aperta um interruptor. Ele pensa por probabilidade: dada a idade, os sintomas, o exame e o histórico da família, a chance é alta. Chega um exame novo, a chance sobe ou desce. Ele quase nunca tem 100% de certeza, e não precisa ter: precisa de confiança suficiente para agir com responsabilidade.
Experimente adotar isso nas suas convicções. Em vez de "eu tenho certeza de que ele vai me decepcionar", tente: "eu considero provável que ele me decepcione, e minhas razões são estas. A, B e C". Parece uma diferença pequena. Não é. Quando você diz "tenho certeza absoluta" e a vida traz uma prova contrária, você só tem duas saídas: negar a realidade ou desabar por inteiro. Já quem calibra tem para onde se mover, ajusta o número e segue.
Convicção calibrada é mais resistente do que convicção absoluta. Parece o contrário, mas é assim. O que não dobra, quebra.
Ferramenta 4, "Isso me faz bem" não é a mesma coisa que "isso é verdade"
Essa é a mais incômoda das quatro. E é justamente a que mais protege você.
Uma crença pode ser um consolo enorme e, ainda assim, ser falsa. E uma verdade pode ser dura de engolir. Ser útil e ser verdadeiro são duas coisas independentes, só que o cérebro humano vive misturando as duas. Existe até um nome para essa armadilha: raciocínio motivado. A gente examina com lupa, desconfiado, tudo que contraria o que a gente quer; e aceita de primeira, sem conferir, tudo que confirma o nosso desejo.
Você já viu isso de perto. A pessoa que continua num relacionamento ruim porque "no fundo ele vai mudar", ela não tem provas de que ele vai mudar; ela tem vontade de que mude, e a vontade se vestiu de certeza. Ou o contrário: alguém apresenta um argumento e você sente uma irritação imediata, um "não" que sobe antes mesmo de você entender o que foi dito. Muitas vezes você não está rejeitando o argumento. Está rejeitando o que ele significaria para a sua vida se fosse verdade.
O teste é simples e serve para os dois lados. Toda vez que você aceitar uma ideia com facilidade e alívio, desconfie um pouco: "aceitei porque as razões são boas, ou porque eu queria que fosse assim?". E toda vez que rejeitar algo com raiva instantânea, pergunte: "estou recusando o argumento, ou estou recusando a consequência dele para mim?".
Isso não é desconfiar de tudo que consola. É só não usar o consolo como prova. Você pode manter o que te faz bem, desde que saiba a diferença entre "isto me acalma" e "isto é verdade".
Um exercício para esta semana
Ler sobre pensar não muda ninguém. Pensar, sim. Então faça um exercício pequeno, no papel ou no bloco de notas do celular.
Pegue uma convicção sua, pode ser espiritual, pode ser sobre você mesmo, pode ser sobre o seu trabalho. Escreva e responda:
- Isso é uma afirmação de fato, de interpretação ou de valor?
- O que precisaria acontecer para eu mudar de ideia?
- De 0 a 10, qual é a minha confiança real nisso? E por que exatamente esse número, e não um acima ou abaixo?
- Se eu descobrisse amanhã que é falsa, o que eu perderia? (Essa última pergunta é a mais reveladora: a sua resposta mostra o quanto de desejo está escondido dentro da sua "certeza".)
Não é para chegar a uma conclusão nem para desistir da ideia. É só para sentir como é olhar para uma crença sem sair correndo para defendê-la. Quem faz isso uma vez, dificilmente volta a pensar do mesmo jeito.
Uma ressalva honesta, para não jogar fora o que importa
Tudo o que eu disse até aqui tem um limite, e seria desonesto esconder.
Essas ferramentas foram feitas para ideias públicas e testáveis. Elas são ótimas para medicina, para dinheiro, para discussões sobre o mundo lá fora. Mas elas são desajeitadas diante da experiência interior. Se uma pessoa vive um momento de profunda paz, de sentido, de conexão, uma noite em que tudo pareceu fazer sentido, um instante diante do mar, uma oração que a atravessou, isso não é "testável" no sentido do prumo. E seria arrogante dizer que ela não viveu nada.
Aqui existem dois erros opostos, e os dois empobrecem a vida. O primeiro é o do fanático, que acha que a força da experiência dele prova um fato sobre o universo inteiro. O segundo é o do cético frio, que acha que, porque não dá para provar, a experiência não vale nada.
O caminho maduro fica no meio, e cabe numa frase: trate a sua experiência como um dado verdadeiro sobre você, e como uma hipótese, não uma prova, sobre a realidade. Guarde a diferença entre "eu senti isto", que ninguém pode contestar, e "isto que eu senti prova que o mundo é assim", que já é um salto, e todo salto se discute.
Você não precisa escolher entre ser uma pessoa que sente e uma pessoa que pensa. Dá para ser as duas. Aliás, é aí que mora a sabedoria: sentir fundo e, ainda assim, ter a coragem de perguntar se o que você concluiu do que sentiu está mesmo de pé.
Para levar com você
Ninguém constrói uma vida boa sobre ideias que nunca examinou. E examinar não é sinônimo de duvidar de tudo, virar frio, perder a fé ou o encanto. É o contrário: é ter carinho suficiente pela verdade para não se contentar com qualquer resposta, inclusive as suas, especialmente as suas.
Comece pequeno. Escolha uma certeza esta semana e passe o prumo nela. Talvez ela continue de pé, mais firme do que antes, agora que você sabe por que acredita. Talvez ela apareça torta, e aí você ganhou algo raro: a chance de consertar uma parede antes de construir a casa inteira em cima dela.
De um jeito ou de outro, você sai na frente. Porque a maioria das pessoas vai viver a vida toda sem nunca ter olhado. E você acabou de olhar.
Se quiser ir além
- Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios, o capítulo do "kit de detecção de mentiras" é a introdução mais generosa e gostosa de ler que existe sobre pensar com clareza.
- Daniel Kahneman, Rápido e Devagar, mostra, com experimentos, como a nossa mente erra sem perceber. Você vai se reconhecer em quase todos.
- Karl Popper, Conjecturas e Refutações, mais denso, mas só o primeiro capítulo já vale a viagem.
Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.
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