Tem uma palavra que a gente usa o tempo todo sem perceber que ela significa quatro coisas diferentes: subconsciente. Quando alguém diz "isso está no meu subconsciente", pode estar falando de coisas que não têm nada a ver umas com as outras, porque essa palavra passou por consultório, por igreja, por livro de autoajuda e por laboratório, e cada lugar deixou nela um sentido próprio. Quem herda a palavra herda a confusão junto.
Isso parece um detalhe, coisa de gente que gosta de discutir palavra. Não é. No artigo anterior, montamos uma convicção do zero e vimos que uma frase pode esconder várias afirmações misturadas. Aqui é a mesma ideia levada a uma palavra só. Enquanto o termo central da sua teoria da mente significar quatro coisas ao mesmo tempo, nenhuma teoria vai se sustentar. Então vamos separar as camadas. São quatro tradições, quatro pessoas, quatro sentidos.
Freud: o inconsciente que esconde
Freud, mais de cem anos atrás, lançou a ideia que mudou o Ocidente: existe conteúdo dentro de você que você não consegue acessar porque uma parte de você o mantém trancado do lado de fora.
O modelo dele tem três andares. O consciente é o que está na sua cabeça agora, enquanto você lê. O pré-consciente é o que não está agora, mas você busca quando quiser, o nome da sua rua, o que você almoçou ontem. E o inconsciente, no sentido forte, é o que foi empurrado para o fundo por ser ameaçador demais: desejos que a gente não aceita ter, memórias que doem, conflitos. Freud chamou esse empurrão de recalque.
O que separa Freud de todo o resto é isto: para ele, esse fundo não é só difícil de acessar, ele é mantido trancado de propósito, e trabalha contra você. É daí que viriam os lapsos de língua (você quer dizer uma coisa e sai outra reveladora), os sonhos e certos sintomas: o material trancado tentando voltar por uma porta lateral.
Um detalhe que ajuda a organizar tudo: Freud recusava a palavra "subconsciente". Achava imprecisa, porque dá a impressão de "só um pouquinho abaixo", quando ele falava de algo separado por uma barreira. Ou seja, a palavra que virou moda é justamente a que o autor original rejeitava. Hoje, a intuição geral dele, de que boa parte da vida mental é inacessível, está confirmada. Já o mecanismo específico que ele inventou, e quase toda a teoria que construiu em cima, não encontrou comprovação. Freud é indispensável na história e frágil na prova. As duas coisas ao mesmo tempo.
Jung: o inconsciente que é maior que você
Jung começou como discípulo de Freud e depois rompeu. A briga central foi esta: para Jung, o inconsciente não é só o porão onde você joga o que não quer ver. É também, e principalmente, algo que você não colocou lá.
Ele dividiu em duas camadas. O inconsciente pessoal, mais ou menos o de Freud, feito da sua história. E o inconsciente coletivo, uma espécie de fundo comum a toda a humanidade, que aparece em figuras que se repetem: o herói, a mãe, o sábio velho, o lado sombrio da gente. A prova que ele apontava é curiosa e concreta: essas mesmas figuras surgem em mitos de povos que nunca se encontraram, em continentes diferentes, séculos antes de existir contato. É por isso que um filme da Marvel e uma lenda grega de três mil anos atrás parecem, no fundo, a mesma história.
Jung também falava de um centro maior dentro da gente, que não é o "eu" do dia a dia, e que se comunicaria com a gente por sonhos, coincidências e intuições. Repare como isso é parecido com a ideia, que muita gente tem, de que "sempre tem algo superior dando dicas de como seguir". Jung descreveria isso como uma parte da sua própria mente, não como algo de fora dela. E ele era honesto: dizia que, como psicólogo, não podia afirmar se havia algo mais atrás disso. Hoje Jung é gigante na terapia, na arte e no estudo de cultura, e ao mesmo tempo é quase impossível de testar pelas ferramentas dos artigos anteriores. Figuras que se repetem nas histórias, isso a antropologia apoia. Figuras herdadas no sangue, isso não. É um sistema fértil, não é ciência no sentido estrito, e Jung sabia disso.
Assagioli: de onde vem a palavra "superconsciente"
Aqui está a origem de um termo que muita gente usa sem saber de onde veio.
Roberto Assagioli, um psiquiatra italiano da mesma época de Freud e Jung, criou o que chamou de Psicossíntese. A crítica dele foi direta: a psicanálise mapeou muito bem o que está embaixo, o reprimido, o infantil, o doente, e não deu nome ao que está em cima. Então ele nomeou. No mapa dele existe o inconsciente inferior (impulsos primitivos, memórias antigas, o que foi reprimido), o inconsciente do meio (o que é fácil de acessar) e o superconsciente, a região de onde viriam as intuições sobre o certo e o errado, os insights criativos, os momentos de elevação, a vontade de ajudar o outro sem ganhar nada, o senso de propósito.
Para Assagioli, essa região do alto é tão real quanto o porão, e a saúde da mente depende de integrar as duas direções, não só cavar o fundo.
E aqui vem a distinção mais importante do artigo. Muita gente diz que "o superconsciente é Deus". Assagioli não diz isso. Para ele, o superconsciente é uma região da sua psique, humana, sua. Acima dela ele coloca um centro maior, e sobre a natureza última desse centro ele de propósito não se pronuncia, para que o mapa servisse tanto a um religioso quanto a um ateu. Ou seja: quem pega o termo dele e cola em cima a ideia de que aquilo é Deus está importando a palavra e acrescentando uma tese que não vinha no pacote. Isso é perfeitamente legítimo, mas é uma tese à parte, que precisa ser sustentada por conta própria. Não vem de brinde com a palavra.
A ciência: o inconsciente que nunca foi consciente
Esta é a tradição que menos aparece em livro espiritual e a que tem mais prova.
A ciência da mente descobriu um inconsciente que não é reprimido, nem elevado, nem coletivo. É simplesmente todo o trabalho que a sua cabeça faz e que nunca teve como ser consciente, porque não foi feito para você observar por dentro.
Pense bem. Você não faz ideia de como o seu cérebro transforma luz nos olhos no rosto reconhecido da sua mãe. Não sabe explicar as regras de gramática que usa perfeitamente ao falar. Não sabe como equilibra o corpo ao subir uma escada no escuro. Tudo isso é processamento fora do seu alcance, o tempo todo, e é a maior parte do que a sua mente faz.
Um pesquisador famoso, Daniel Kahneman, resumiu isso em duas velocidades. O sistema rápido, automático, que está sempre ligado e responde na hora (2 mais 2, o rosto de um amigo, o susto ao ouvir um barulho). E o sistema lento, que pensa com esforço, custa energia e tem preguiça (multiplicar 17 por 24, preencher um formulário difícil). O detalhe incômodo: quase toda decisão que você sente como uma escolha pensada já chegou pronta do sistema rápido, e o sistema lento muitas vezes só assina embaixo e inventa uma justificativa depois.
Tem um caso que prova, de forma limpa, que existe memória fora da consciência. Um paciente conhecido pelas iniciais H.M. perdeu, numa cirurgia, a capacidade de formar lembranças novas. Ensinaram a ele uma tarefa manual difícil, e dia após dia ele melhorava, ficava nitidamente mais habilidoso. Só que, a cada sessão, ele jurava que nunca tinha visto aquilo na vida. A habilidade estava sendo gravada; a lembrança de ter aprendido, não. Duas memórias diferentes, uma consciente e outra não, guardadas em lugares diferentes. Dessas quatro tradições, esta é a mais sólida, a que tem os dados na mão.
O que cada uma acerta
Vale guardar assim, curto:
- Freud acertou que existe conteúdo trancado e que parte disso é defesa. Errou nos detalhes de como funciona.
- Jung acertou que a mente amadurece numa direção e que os símbolos importam. Não dá para testar direito.
- Assagioli acertou ao dar nome à região de cima, que Freud tratava como doença disfarçada. E foi honesto ao não afirmar o que ela é lá no fundo.
- A ciência acertou que a maior parte do inconsciente não esconde nada, só é fechada por construção. E tem a prova.
Nenhuma anula as outras, mas elas também não se encaixam à vontade. Você não pode empilhar as quatro e chamar de sistema. Pode escolher uma, com consciência do que está escolhendo.
Trazendo para a sua intuição
Pegue uma crença comum: a de que a intuição é um aviso de algo superior. Agora a gente tem quatro explicações possíveis para o mesmo fenômeno de "eu simplesmente soube":
- Freud: um material seu, trancado no fundo, voltando com cara de aviso vindo de fora.
- Jung: aquele centro maior dentro de você se comunicando.
- Assagioli: o superconsciente mandando um insight.
- A ciência: o seu cérebro reconhecendo um padrão a partir de anos de experiência, rápido demais para você perceber o processo.
E aqui está a boa notícia: essas quatro não são igualmente indistinguíveis. Dá para separar.
Dois pesquisadores que viviam discordando sobre intuição, Kahneman e Gary Klein, sentaram juntos e escreveram o que conseguiam concordar. A conclusão foi clara: a intuição é confiável quando duas condições acontecem juntas. Primeiro, o ambiente precisa ter regularidade, um padrão de verdade para ser aprendido. Segundo, a pessoa precisa ter praticado naquilo por muito tempo, recebendo retorno claro sobre o que acertou e o que errou. Foi assim que Klein explicou os bombeiros experientes que "simplesmente sentem" que um assoalho vai desabar e mandam todo mundo sair, segundos antes de acontecer. Não é mágica. É o cérebro lendo, em silêncio, sinais que anos de incêndio ensinaram.
Isso te dá um teste, e ele é seu. Se a sua intuição é boa nos assuntos em que você tem vinte anos de estrada, o seu negócio, a leitura das pessoas que você convive, as decisões da sua área, então a explicação 4 dá conta sozinha, e dá conta muito bem. Agora, se a sua intuição fosse igualmente certeira em assuntos onde você não tem experiência nenhuma e nunca recebeu retorno, aí a explicação 4 ficaria curta, e as outras três ganhariam força. E você já tem a ferramenta para verificar isso na prática: o caderno de previsões que propus no artigo dos vieses.
Um exercício para esta semana
Se você começou o tal caderno de previsões, acrescente uma coluninha: em que área é aquela previsão. Marque cada uma como um de dois tipos.
- Tipo A: área onde você tem muita experiência e recebe retorno claro (o seu setor, as pessoas do seu convívio, decisões que você já tomou centenas de vezes).
- Tipo B: área onde você tem pouca ou nenhuma experiência acumulada.
No fim de três meses, compare as duas taxas de acerto separadas. Se o Tipo A for muito melhor que o Tipo B, você tem uma intuição de especialista, que é uma capacidade real, valiosa e nada comum, só que construída com o tempo, não recebida de presente. Se os dois forem parecidos, você tem em mãos uma coisa que a explicação da ciência não cobre bem, e aí sim vale a pena pensar no assunto com seriedade. Nos dois casos, você termina sabendo algo que não sabia. É o que separa investigar de apenas acreditar.
Duas ressalvas honestas
A primeira: separar as palavras não é o mesmo que reduzir tudo a química do cérebro. Dizer que a ciência tem mais prova não significa dizer "no fundo é só neurônio". A tradição da ciência tem mais prova porque estuda o que é mais fácil de estudar.
Facilidade de medir não é medida de importância. É medida de acesso.
A segunda: a explicação da ciência tem um limite claro. Ela cobre bem a intuição do especialista. Cobre mal a experiência de sentido, o impulso de fazer o certo contra o próprio interesse, o insight criativo que não vem de nada acumulado. Assagioli deu nome a essa região justamente porque a psicologia da época a tratava como sintoma. Ele estava certo em nomear.
O que este artigo pede é só uma coisa: saiba qual palavra você está usando e de quem ela é. Você continua livre para montar o seu próprio mapa da mente. Só não vai mais montá-lo com peças emprestadas sem saber o que vinha grudado nelas.
Se quiser ir além
- Timothy Wilson, Estranhos a Nós Mesmos. O inconsciente da ciência em linguagem fácil. Talvez o mais útil da lista para começar.
- Roberto Assagioli, Psicossíntese. O mapa da região de cima, na fonte. Comece pelo capítulo do modelo da mente.
- Jung, O Homem e seus Símbolos. Escrito de propósito para o leigo, no fim da vida dele. É a porta de entrada certa para Jung.
Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.
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