Rogério tem 41 anos e é gerente de logística numa transportadora em Contagem. Acorda às 5h20, sai de casa antes de o filho levantar, apaga incêndio o dia inteiro e volta às 20h com o celular ainda apitando no bolso. Todo mundo na empresa diz que ele é o cara que segura a operação.

Semana passada o dono chamou o Rogério para conversar. Contou que estava criando uma diretoria de operações e que já tinha escolhido alguém, um sujeito mais novo, que entrou depois dele. Rogério não entendeu. Ele trabalha mais do que qualquer um. Chega antes, sai depois, atende no domingo. Como é que quem se esforça mais não é quem avança mais? Essa é exatamente a pergunta que abre o trabalho de Brendon Burchard, e é sobre ela que este texto vai girar.

Quem é Brendon Burchard

Burchard é um pesquisador e coach americano, nascido em Montana em 1977. Trabalhou na consultoria Accenture antes de migrar para a área de desempenho humano, onde fundou o High Performance Institute. A história que ele conta sobre a própria origem é simples e dura: aos 19 anos sofreu um acidente de carro grave, sobreviveu, e saiu de lá com três perguntas que nunca mais o largaram e que atravessam tudo o que ele escreveu depois. Eu vivi? Eu amei? Eu importei? O livro mais importante dele é "Hábitos de Alta Performance", de 2017, e é dele que este estudo trata.

Uma observação de honestidade antes de seguir: Burchard vende cursos, certificações e programas de coaching, e a pesquisa que ele cita é conduzida pelo próprio instituto dele. Isso não invalida as ideias, várias são excelentes, mas nos obriga a ler com o filtro ligado. Vamos separar o que é raciocínio sólido do que é discurso de palco.

O que é "alta performance", afinal

A definição de Burchard é curta e vale guardar.

Alta performance é ter sucesso acima da média, de forma consistente, no longo prazo.

Repare nas duas últimas palavras. Não é o mês bom. Não é o ano em que tudo deu certo. É a repetição que se sustenta. E aqui está a distinção mais útil que ele faz: existe diferença entre o realizador e o alto desempenho. O realizador avança na garra e na força bruta. Ele empurra. Funciona por um tempo, e depois trava, adoece ou queima. Rogério é um realizador. O alto desempenho avança por sistema. Não trabalha necessariamente mais horas. Trabalha de um jeito que se sustenta por décadas.

Pare e reflita

Nos últimos três anos, você melhorou de verdade ou apenas aguentou mais?

Escreva a resposta antes de continuar. Sem rodeio e sem justificativa.

A descoberta que incomoda

Burchard afirma uma coisa que contraria boa parte da literatura de autoajuda: testes de personalidade não preveem desempenho. Myers-Briggs, teste de perfil comportamental, eneagrama, mapa de forças, nenhum deles diz o que você vai realizar. Eles descrevem tendências, não destinos.

O que prevê desempenho, segundo ele, são fatores que dá para mudar: mentalidade, foco, persistência, nível de energia, qualidade dos relacionamentos. Isso derruba uma frase muito repetida no mundo corporativo, a de "foque nas suas forças e delegue o resto". Burchard discorda de frente. Ele argumenta que a eficácia não nasce de fazer o que é natural, fácil ou confortável. Nasce de crescer além do que é natural. Se a missão que você escolheu é grande, você vai ter que desenvolver justamente aquilo que hoje você não gosta de fazer. É uma ideia dura e, ao mesmo tempo, libertadora: você não está preso ao seu perfil.

Ele organiza tudo em seis hábitos. Três são pessoais, acontecem dentro de você. Três são sociais, acontecem entre você e os outros. Ele os chama de meta-hábitos: hábitos que, quando instalados, fazem todos os outros hábitos bons caírem no lugar sozinhos. Vamos a eles.

Hábito 1: buscar clareza

Clareza não é ter descoberto a sua paixão aos 22 anos e nunca mais pensar no assunto. É uma prática contínua de reavaliar quem você é, o que quer e a quem serve. A virada que Burchard propõe é trocar a pergunta. A maioria das pessoas se pergunta "o que eu preciso fazer hoje?". O alto desempenho se pergunta "quem eu preciso ser hoje?".

Pense na Sandra, 36 anos, dentista em Feira de Santana. Ela tem agenda cheia e conta boa. Mas percebeu que estava chegando em casa e sendo, com o marido e a filha, exatamente a pessoa que era no consultório: técnica, apressada, resolvendo. Sandra passou a escrever, toda manhã, três palavras para cada área da vida, quem ela quer ser no trabalho e quem quer ser em casa. As dela hoje são: precisa, calma, presente. Não mudou a agenda dela. Mudou quem ela é dentro da agenda.

Pare e reflita

Escreva três palavras que descrevem quem você quer ser no trabalho.

Agora escreva três palavras que descrevem quem você quer ser em casa.

Compare com quem você foi ontem. Onde está a distância?

Exercício da semana: cole as seis palavras onde você vê todo dia. Antes de qualquer reunião difícil, releia as três do trabalho.

Hábito 2: gerar energia

A maioria das pessoas trata energia como consequência: quando as coisas melhorarem, a disposição volta. Burchard inverte. Energia é pré-requisito, não recompensa. É uma reserva que você constrói de propósito, física, mental e emocional. E ele dá uma ferramenta simples, talvez a mais aplicável do livro inteiro: a transição.

A ideia é que ninguém adoece só pelo volume de trabalho. Adoece por carregar a tensão de uma tarefa para dentro da próxima. Você sai de uma reunião ruim e entra na conversa com o filho ainda com a reunião no corpo. A prática é curta: entre uma atividade e outra, pare de 60 a 90 segundos. Feche os olhos. Respire mais devagar. Solte a tensão do ombro e da mandíbula. E pergunte a si mesmo: qual energia eu quero levar para o que vem agora?

Pense no Marcelo, 48 anos, caminhoneiro autônomo, de Cascavel. Ele passou a fazer isso ao encostar em casa: desliga o motor e fica dois minutos no banco antes de descer. Antes, entrava em casa ainda dirigindo. Ele diz que esses dois minutos devolveram o jantar da família para ele.

Pare e reflita

Qual foi a última vez que você entrou em casa ainda no trabalho?

O que a sua família recebeu de você naquela noite?

Exercício da semana: programe três alarmes no celular, meio da manhã, meio da tarde e a chegada em casa. Um minuto de transição em cada um, por sete dias.

Hábito 3: elevar a necessidade

Este é, na minha leitura, o hábito mais forte do livro, e o que separa quem muda de quem só planeja mudar. Necessidade é a diferença entre "seria bom" e "isso é obrigatório". Todo mundo tem uma lista de coisas que seria bom fazer. Quase ninguém executa essa lista. O que se executa é o que virou obrigatório.

Burchard aponta duas fontes de necessidade. A interna vem da identidade e do padrão pessoal, o "não sou o tipo de gente que entrega malfeito". Vem de dentro e não depende de ninguém olhando. A externa vem do dever e do compromisso assumido em público, um prazo real, gente contando com você, alguém que vai cobrar. O erro comum é depender só da interna. Motivação interna oscila. Compromisso público não some quando você acorda desanimado.

Volte ao Rogério, o gerente do começo. Ele queria fazer uma pós em gestão havia quatro anos. Todo janeiro dizia que era o ano. Nunca era. O que mudou: ele contou para a esposa e para dois colegas que ia começar em março, pagou a matrícula à vista e marcou as terças no calendário compartilhado da equipe. Ele não virou mais disciplinado. Ele apenas transformou um desejo numa obrigação com testemunhas.

Pare e reflita

Pense em algo que você quer há mais de dois anos e ainda não fez.

Escreva por que isso ainda é apenas "seria bom".

Agora escreva: quem precisa saber disso para que vire obrigatório?

Exercício da semana: escolha uma coisa da sua lista antiga. Conte para duas pessoas, com data marcada. Só isso.

Hábito 4: aumentar a produtividade

Aqui está o conceito mais útil que Burchard criou, e vou tirar a sigla dele para ficar claro: existe, em toda profissão, um produto que realmente conta. Do escritor, é o livro. Do professor, é a aula. Do advogado, é a peça. Do vendedor, é a conversa com o cliente. Do programador, é o código que entra no ar. Todo o resto, e-mail, reunião, planilha de controle, grupo de WhatsApp, é infraestrutura. Necessária às vezes, mas não é o produto.

A pergunta que muda a semana é esta: qual é o meu produto principal, e quantas horas dele eu produzi nesta semana? A maioria das pessoas descobre, ao responder isso com honestidade, que passa 80% do tempo em atividades de apoio e 20% produzindo aquilo que de fato as define. E depois se pergunta por que não avança. Foi o que aconteceu com Rogério. Ele era excelente em apagar incêndio, mas o produto de um gerente de operações não é apagar incêndio, é desenhar processos que impeçam o incêndio. Ele passou doze anos entregando infraestrutura com maestria e quase nenhum produto principal.

Pense na Juliana, 33 anos, arquiteta em Belém. O produto dela é projeto entregue. Ela mapeou a semana e encontrou 6 horas de projeto contra 31 horas de orçamento, fornecedor e cliente ansioso. Bloqueou terça e quinta de manhã, sem exceção e sem celular. Não ficou mais organizada. Ficou mais produtiva no que importa.

Pare e reflita

Complete a frase: no fim das contas, eu sou pago para produzir ______.

Quantas horas da sua última semana foram nisso?

Exercício da semana: anote por cinco dias, de hora em hora, o que você fez. Sem julgar. No sexto dia, some quantas horas foram do seu produto principal. O número costuma assustar, e é justamente esse susto que serve.

Hábito 5: desenvolver influência

Burchard tem uma posição incômoda aqui: influência não se constrói sendo agradável. Ela se constrói de duas maneiras. A primeira é ensinar as pessoas a pensar, não dar a resposta pronta, mas oferecer o jeito de raciocinar. Quem entrega resposta cria dependentes. Quem entrega critério cria gente capaz. A segunda é pedir mais das pessoas. As pessoas que mais nos marcaram na vida não foram as que nos elogiaram. Foram as que acreditaram que a gente era capaz de mais do que estava entregando, e disseram isso na nossa cara.

Pense na Cleide, 45 anos, coordenadora de uma equipe de vendas em Londrina. Ela era conhecida como a chefe boazinha. Resolvia tudo pelos vendedores. A equipe gostava dela e não crescia. Cleide mudou uma única coisa: quando alguém chega com um problema, ela pergunta antes "quais são as suas duas opções e qual você escolheria?". Nos primeiros meses, incomodou. Depois, três pessoas do time viraram gente que não precisa mais dela.

Pare e reflita

Quem foi a pessoa que mais exigiu de você na vida?

Você é grato ou ressentido? Por quê?

De quem você está exigindo de menos agora, por medo de desagradar?

Exercício da semana: na próxima vez que alguém trouxer um problema pronto para você resolver, devolva com uma pergunta. Uma vez que seja.

Hábito 6: demonstrar coragem

O sexto hábito é o mais fácil de entender e o mais difícil de praticar. Burchard trata coragem não como ausência de medo, mas como agir apesar do medo, e principalmente como hábito, não como traço de personalidade. Não é algo que você tem ou não tem. É algo que você exercita ou deixa atrofiar. Três formas concretas no dia a dia: defender uma ideia numa sala onde ela não é popular, começar antes de se sentir pronto, e ter a conversa difícil que você vem adiando.

Pense no Anderson, 29 anos, analista financeiro em Recife. Ele percebe erros nas apresentações da diretoria há dois anos e nunca fala. Sempre parece que não é a hora, que ele é novo demais, que alguém mais experiente vai notar. Anderson não tem um problema de competência. Ele tem uma conta de coragem que nunca foi movimentada.

Pare e reflita

Qual é a conversa que você está adiando há mais tempo?

O que exatamente você teme que aconteça?

E se acontecer, qual é o custo real, comparado ao custo de continuar adiando?

Exercício da semana: marque a conversa. Não precisa tê-la ainda. Só marque.

O que Burchard não responde

Um estudo honesto precisa apontar as lacunas, e este tem três. A primeira é que a pesquisa é dele. Burchard afirma ter feito levantamentos com dezenas de milhares de pessoas em quase duzentos países, mas não há, até onde dá para verificar, validação independente ou revisão por outros pesquisadores desses números. É pesquisa de uma empresa que vende certificação. Não é mentira, é interesse. Trate os dados como argumento, não como prova.

A segunda lacuna é que falta a pergunta sobre o custo. O livro fala muito sobre como sustentar o alto desempenho e quase nada sobre o que se perde no caminho. Quem você deixou de ser para performar assim? Que parte da sua vida virou infraestrutura da sua carreira? Tolstói, em "A Morte de Ivan Ilitch", faz essa pergunta com uma profundidade que Burchard não alcança.

A terceira é que o vocabulário atrapalha. Boa parte do jargão de palestra embrulha ideias simples num papel bonito. Fique com as ideias e descarte as siglas.

Pare e reflita

Se você aplicasse os seis hábitos com perfeição pelos próximos dez anos, o que exatamente você teria no fim?

Isso é o que você quer, ou é o que você aprendeu a querer?

Um plano de sete dias

Não tente instalar seis hábitos ao mesmo tempo. Não funciona. Faça um por dia e observe.

  1. Clareza. Escreva as três palavras do trabalho e as três de casa. Cole onde você vê.
  2. Energia. Três transições de um minuto: manhã, tarde e chegada em casa.
  3. Necessidade. Escolha um desejo antigo. Conte para duas pessoas, com data.
  4. Produtividade. Defina o seu produto principal em uma frase. Bloqueie duas horas dele na semana que vem.
  5. Influência. Devolva um problema com uma pergunta, em vez de resolver.
  6. Coragem. Marque a conversa que você vem adiando.
  7. Revisão. Releia as anotações da semana. Qual dos seis hábitos foi o mais difícil para você? Esse é o seu.

As três perguntas

Burchard voltou daquele acidente aos 19 anos com três perguntas. Elas continuam sendo o melhor resumo do trabalho dele, e valem mais que os seis hábitos juntos, porque são a razão de os seis hábitos existirem. Eu vivi? Eu amei? Eu importei?

Os hábitos são o meio. Essas perguntas são o fim. Se você organizar a vida inteira em torno de desempenho e não conseguir responder às três, terá construído uma máquina muito eficiente para chegar ao lugar errado. Rogério, o gerente de Contagem, não perdeu a diretoria por falta de esforço. Perdeu porque passou doze anos correndo sem nunca parar para perguntar para onde. E essa é uma pergunta que nenhuma quantidade de trabalho responde.

Se esse tipo de exame te interessa, ele conversa direto com uma série que escrevi aqui sobre pensar com clareza, que começa em como saber se uma ideia é verdadeira. Os hábitos organizam a ação. Aquela série organiza o julgamento por trás dela.

Para levar

  • Alta performance é consistência no longo prazo, não intensidade no curto.
  • Personalidade não determina resultado. Hábito determina.
  • O que vira realidade não é o que "seria bom", é o que virou obrigatório.
  • Descubra o seu produto principal e proteja o tempo dele contra todo o resto.
  • Influência se constrói exigindo mais, não agradando mais.
  • Coragem é conta bancária: só rende se for movimentada.

Este texto é uma leitura crítica da obra de Brendon Burchard, em especial de "Hábitos de Alta Performance", de 2017. Os personagens são fictícios e foram criados só para ilustrar os conceitos. As afirmações sobre a pesquisa do instituto dele reproduzem o que o próprio autor divulga e não foram verificadas de forma independente.

Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.

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