Existe um tipo de inquietação que não aparece no balanço. Ela não vem quando o mês fecha no vermelho. Vem, quase sempre, quando fecha no azul. Quando a empresa está estável, a equipe está formada, os problemas são os de sempre, e você percebe, num intervalo silencioso do dia, que faz anos que não é surpreendido por nada dentro da própria vida. Você não está em crise. Está em piloto automático de alta performance. E isso é mais difícil de enxergar do que uma crise, porque tem a aparência de sucesso.
Erwin Raphael McManus, escritor americano nascido em El Salvador, construiu uma obra inteira em cima dessa inquietação. Ele é pastor em Los Angeles, escreve sobre criatividade e mentalidade, e seus livros venderam mais de um milhão de exemplares. Não é um autor de negócios, e é justamente por isso que ele é útil para quem está em negócios: ele faz perguntas que a literatura de gestão não faz. Este texto é uma destilação do pensamento dele, traduzido para a nossa realidade, a de quem tem CNPJ, folha de pagamento e uma vida inteira apostada em algo que construiu com as próprias mãos. Ele conversa de perto com outro estudo que fiz aqui, sobre alto desempenho, só que puxando para o lado oposto: não como render mais, e sim se render mais é mesmo o que falta.
Existe uma palavra para isso: domesticação
O conceito mais provocativo de McManus aparece em "The Barbarian Way", de 2005. Ele o dirige a pessoas de fé, mas a estrutura do argumento serve para qualquer um. A tese é mais ou menos esta: o perigo não é você virar uma pessoa ruim. O perigo é você virar apenas uma pessoa respeitável. Alguém que não faz nada de errado e, por isso mesmo, parou de fazer qualquer coisa que exija coragem. Ele chama isso de domesticação, a troca silenciosa da intensidade pela conveniência.
Repare no movimento, porque ele é sutil. Ninguém decide se acomodar. A acomodação se instala pela soma de decisões razoáveis: você para de ir ao cliente difícil porque tem quem vá, para de escrever porque não tem tempo, para de discutir ideias porque discussão cansa, para de mudar o que funciona porque funciona. Cada uma dessas decisões, sozinha, é defensável. Juntas, elas formam uma vida sem atrito. E vida sem atrito é vida sem formação, porque nada em você é convocado. O empresário domesticado não fracassou. Ele apenas transferiu, um por um, todos os atos que exigiam alguma coisa dele.
Em que áreas da sua vida você se tornou apenas respeitável?
Não responda "nenhuma". Responda por domínio: no trabalho, no corpo, no casamento, na vida intelectual, na fé, nas amizades. Escreva os nomes. Onde é que faz mais de um ano que você não foi convocado a ser corajoso?
O conceito mais útil: a quase-vida
No livro mais recente, "Mind Shift", McManus formula a ideia que talvez seja a mais aproveitável de toda a obra dele. Ele diz que a maioria das pessoas vive o que chama de quase-vida. A gente quase persegue o sonho. Quase toma a decisão que mudaria tudo. Fica sempre a uma escolha de distância, e permanece ali, a uma escolha de distância, por vinte anos.
Isso é diferente de fracasso. Fracasso é uma decisão que deu errado, e decisão que dá errado ensina. A quase-vida não ensina nada, porque nunca chegou a acontecer. Ela só ocupa espaço. E aqui está o ponto que o empresário precisa ouvir: nós somos especialistas em decidir, e isso esconde de nós as decisões que não tomamos. Você decide dezenas de coisas por dia. Contrata, demite, precifica, negocia, assina. Essa fluência cria a ilusão de que você é uma pessoa que decide. Mas as decisões operacionais não custam nada no plano existencial. São escolhas dentro de um trilho já posto.
As decisões que mudam a vida são de outra natureza: encerrar a sociedade que não funciona mais, sair do setor que te esgotou, escrever o livro, procurar o filho, cortar o cliente que paga bem e custa caro, assumir uma posição em público. Essas você adia, e o adiamento se disfarça de prudência.
Pegue uma folha em branco. Liste as decisões que você adiou mais de três vezes nos últimos cinco anos. Só as que voltaram sozinhas à sua cabeça.
Ao lado de cada uma, escreva a razão do adiamento. Depois releia cada razão e classifique, com honestidade, em uma de duas colunas. Coluna A, prudência real: faltava informação, recurso ou momento. Coluna B, medo bem vestido: o motivo muda de nome a cada ano, mas a inação é sempre a mesma.
A coluna B é o seu inventário de quase-vida. Não é para resolver tudo. É para parar de chamar de estratégia o que é hesitação.
A empresa como obra: criatividade é ofício, não talento
Em "The Artisan Soul", McManus defende que criatividade não é um dom de alguns, e sim a marca do humano. E, o que mais importa para nós, que ela é processo, não surto. A imagem que ele usa é a do pão artesanal: não basta a qualidade dos ingredientes, importa o cuidado com o processo, que se dá no tempo.
Isso desmonta uma crença cara ao mundo empresarial, a de que quem não é "criativo" não precisa se preocupar com isso. Precisa. Porque criatividade, no sentido dele, não é ter ideias originais, é a recusa a entregar qualquer coisa no automático. Um contrato pode ser feito de forma domesticada ou artesanal. Uma reunião. Uma demissão. Uma proposta comercial. O produto é o mesmo, o que muda é a presença de quem faz. E o cliente sente essa diferença antes de saber dar nome a ela. Em geral, ele a chama de confiança. Se a sua empresa é, como a minha, uma construção de duas décadas, vale a pergunta: você a está administrando, ou ainda a está esculpindo?
Cite uma coisa que você entregou na última semana no automático, e que, se fosse feita com cuidado de ofício, teria mudado alguma relação.
O contraponto, que é a parte mais importante
Seria fácil terminar aqui, com a mensagem de sempre: ouse mais, arrisque mais, não se acomode. Mas eu estudo esse autor com admiração e com reserva, e devo a você as duas coisas.
McManus é combustível. Toda a obra dele empurra na mesma direção: mais intensidade, mais risco, nada guardado para depois. Para uma pessoa paralisada, isso é remédio. Para um empresário, que em geral já vive com o motor alto, pode ser exatamente o veneno. Porque existe uma pergunta que ele não faz, e que os estoicos fazem há dois mil anos: e se o problema não for a falta de expansão, mas a incapacidade de reconhecer o suficiente?
Sêneca e McManus respondem de maneiras opostas ao mesmo problema:
| McManus | Estoicos | |
|---|---|---|
| Critério de vida boa | intensidade, nada deixado por realizar | serenidade, suficiência |
| O que fazer com o desejo | libertar | examinar e podar |
| O fracasso a evitar | a vida pequena | a vida agitada |
Nenhum dos dois está errado. Eles são remédios para doenças diferentes. E o erro mais comum do empreendedor é tomar sempre o mesmo remédio, o da expansão, porque é o único sabor a que está acostumado. Por isso, o teste que proponho é este: se a mensagem "faça mais, arrisque mais" te empolga na hora, isso é sinal de afinidade, não de necessidade. Autor que só confirma quem você já é serve de estímulo, não de formação. Quem precisa de McManus é quem se encolheu. Quem já corre demais talvez precise do contrário, e chamar isso de acomodação é uma mentira confortável.
O trabalho da semana
Nada do que está aqui vira coisa alguma sem papel e sem data. Então, um plano curto:
- Dia 1. Faça o inventário das quase-decisões. Só a lista, sem julgar.
- Dia 2. Classifique em prudência real e medo bem vestido.
- Dia 3. Escolha uma da coluna B. A menor delas, não a mais dramática.
- Dia 4. Defina o menor passo possível que a torna irreversível: uma ligação, um e-mail, uma conversa marcada.
- Dia 5. Dê o passo.
- Dia 6. Responda por escrito: qual é o meu critério de vida bem vivida, a extensão do que realizei ou a qualidade do que vivi?
- Dia 7. Não faça nada. Sério. Se o descanso for insuportável, você já sabe qual dos dois remédios é o seu.
O erro silencioso de uma geração
Construir uma empresa é uma das formas mais honestas de trabalho que existem. Mas construir muito e viver bem não são a mesma coisa, e confundir as duas é o erro silencioso de uma geração inteira de empresários. A pergunta que fica não é se você foi longe. É se, em algum ponto dessa estrada, você trocou a vida que era sua por uma versão apenas respeitável dela. E, se trocou, a boa notícia é que a troca não é definitiva. Ela só precisa ser vista.
Se este texto provocou alguma coisa em você, não deixe a provocação morrer na leitura. Faça o inventário, escolha uma decisão da coluna B e dê o menor passo que a torna real.
Diego Ciatos é empresário à frente do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG, e escreve sobre negócios, patrimônio e, também, sobre as ideias que orientam uma vida. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.
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