Hoje saí para andar de jet ski com meu filho.

A casa de veraneio para onde vamos alguns fins de semana fica num condomínio de frente para uma represa. Tem piscina, tem campo, tem jet ski, tem quadriciclo. Tudo aquilo que, anos atrás, eu nem saberia colocar numa lista de sonhos, porque simplesmente não fazia parte do meu mundo.

A água estava calma. Meu filho ia na frente, rindo, sentindo o vento no rosto. Enquanto a gente cortava a represa, eu ia observando tudo ao redor e comentava com ele sobre como precisamos agradecer a Deus por tudo o que temos. E foi nesse estado de espírito, de gratidão e de atenção, que meu olhar foi parar na outra margem.

Lá estavam várias famílias. Crianças nadando, se jogando na água, gritando de alegria. Um grupo de amigos em volta de uma churrasqueira improvisada. Um som alto tocando de algum carro com o porta-malas aberto. Gente sentada na grama, sem pressa nenhuma.

E naquele instante eu não vi estranhos. Eu vi a mim mesmo.

O menino da beira do rio

Eu cresci em Poço Fundo, no Sul de Minas. E, na minha história, não havia represa. Havia o rio.

Meu pai tinha uma casinha simples na beira do rio. Alguns amigos também tinham as suas, ali perto. Aos treze, catorze, quinze, dezesseis anos, aquelas casinhas eram o meu clube, o meu parque, o meu destino de férias. Não tinha outro.

Era ali que a gente ia pescar. Era ali que a gente nadava, andava de canoa, ligava o som no volume máximo, fazia farra com os amigos, pulava no rio e passava a tarde inteira dentro d'água até o sol ir embora.

Depois fui estudar em Alfenas, uma cidade maior. Mas, no primeiro e no segundo ano, eu voltava para Poço Fundo quase todo fim de semana. E voltava para o mesmo rio. Para a mesma casinha. Para os mesmos amigos. Para aquela mesma sensação de que a vida inteira cabia numa tarde de sábado.

Hoje, sentado do lado de cá, eu olhava para o lado de lá e reconhecia cada gesto. O menino que corre e pula sem pensar. O pai que vira a carne com a mão, sem pegador. O grupo que ri de uma piada que só eles entendem.

E veio a pergunta que me acompanhou o resto do dia:

Será que a vida é mais feliz do lado de cá do que do lado de lá?

A resposta que eu não esperava

Eu passei boa parte da vida trabalhando para atravessar essa represa.

Saí do interior, vim para Belo Horizonte, construí empresas, estudei, errei, recomecei, cresci. Cada conquista foi fruto de muito trabalho, e eu tenho orgulho de cada uma delas. Não vou fingir o contrário. Poder oferecer ao meu filho uma tarde de jet ski é uma alegria verdadeira.

Mas, olhando para o lado de lá, a conclusão a que cheguei hoje foi outra: talvez não. Talvez a vida do lado de cá não seja mais feliz. Talvez seja apenas uma felicidade diferente.

E, se eu for honesto comigo mesmo, talvez quem está do lado de lá aproveite a vida mais intensamente do que muita gente que está do lado de cá.

Não digo isso como regra. Digo como percepção de quem já esteve nas duas margens.

Por que o pouco às vezes vale mais

Pense numa família que junta dinheiro o ano inteiro para passar uma semana em Guarapari. Essa viagem é esperada durante meses. É planejada, sonhada, contada para os vizinhos. Cada dia na praia é vivido como se fosse único, porque, de fato, é.

Agora pense em alguém que viaja para o exterior várias vezes por ano, que tem piscina em casa, que pode fazer praticamente o que quiser no fim de semana. Para essa pessoa, uma viagem pode virar só mais uma. A piscina pode passar semanas sem ninguém entrar. O jet ski pode ficar parado na garagem.

A psicologia tem um nome para isso: adaptação hedônica. É a tendência que todos nós temos de nos acostumar com aquilo que conquistamos. O que um dia foi extraordinário, com o tempo, vira normal. E o que é normal deixa de nos emocionar.

Quando tudo está disponível, quase nada é especial.

Quando quase nada está disponível, cada coisa se torna uma festa.

Talvez seja por isso que aquelas crianças do lado de lá riem tão alto. Para elas, aquela tarde na represa não é "mais um sábado". É o sábado.

Mas também não quero romantizar

Seria fácil, e desonesto, terminar dizendo que "quem tem menos é mais feliz". Não é tão simples.

Eu sei o que existe do lado de lá além da tarde de sol. Existe a conta que não fecha no fim do mês. Existe o sonho adiado. Existe a preocupação com o emprego, com a saúde, com o futuro dos filhos. A alegria daquela margem é real, mas o peso também é.

E o lado de cá também não está condenado à insatisfação. Quem tem mais recursos pode, sim, viver com intensidade, gratidão e presença. Conheço pessoas assim. O dinheiro não impede ninguém de ser feliz. Ele só não garante.

Talvez a diferença não esteja na margem em que a gente está. Esteja no jeito como a gente olha para o que tem.

As tardes de pescaria com meu avô

Tem uma cena que se repete quase toda vez que ando de jet ski por aqui. Sempre vejo alguém pescando na beira da represa. Uma vara, um balde, uma cadeira de plástico e uma paciência que eu já tive e, confesso, perdi.

E essa cena mexe comigo mais do que qualquer outra.

Meus pais são separados. Da quinta à oitava série, fui criado pelos meus avós. Morava com eles, estudava em escola pública e, depois do almoço, a vida tinha um roteiro só: pescar.

Meu avô e minha avó gostavam muito de pescar. Meu avô tinha um Fiatzinho 147, que ele me emprestava e que eu dirigi por muito tempo. A gente entrava no carro depois do almoço e ia para os rios da região de Poço Fundo. Passávamos a tarde inteira ali. Sem pressa, sem celular, sem reunião, sem meta.

Quem diria que, anos depois, eu sentiria tanta falta daquilo.

Hoje essas tardes não fazem mais parte da minha rotina. A rotina virou outra: escritório, empresas, decisões, crescimento. Crescer materialmente, crescer financeiramente. E, de vez em quando, no meio de tudo isso, vem a pergunta que todo empreendedor um dia se faz:

Até onde? E por quê?

A bola de neve

Eu costumo dizer que o mundo nos empurra para uma vida da qual, às vezes, a gente não consegue dar um passo para trás.

Funciona assim. À medida que você cresce, o seu custo de vida cresce junto. A casa é maior, as responsabilidades são maiores, os compromissos são maiores. E, sem perceber, você vira uma bola de neve descendo a montanha. Quanto mais ela rola, mais ela cresce. E quanto mais ela cresce, mais difícil fica parar.

Se um dia você decide refletir, desacelerar ou simplesmente parar, precisa ter uma renda passiva muito sólida para sustentar essa escolha. Senão, você quebra.

E tem um detalhe que muda tudo: a família.

Quando você está sozinho, dar um passo para trás é uma escolha. Você arrisca, você assume, você recomeça. Mas, a partir do momento em que se torna pai de família, essa decisão deixa de ser só sua. Existem pessoas que dependem dela. Existe a escola dos filhos, a segurança da casa, o futuro de quem você ama.

Quando você é sozinho, parar é uma escolha. Quando é uma família, parar deixa de ser uma escolha.

Talvez seja por isso que aquele homem pescando na beira da represa me toque tanto. Ele está vivendo, num sábado qualquer, aquilo que eu vivia todos os dias ao lado do meu avô, e que hoje, do lado de cá, precisa ser agendado.

O que eu levo desta tarde

A felicidade é profundamente individual. Ninguém consegue medir a do outro olhando de longe, da água, em cima de um jet ski.

Muita gente do lado de lá provavelmente sonha em estar do lado de cá, imaginando que aqui a vida é mais leve. Outros nem pensam nisso, e estão ocupados demais sendo felizes naquele momento. Talvez esses sejam os mais sábios.

E muita gente do lado de cá talvez tenha esquecido o gosto de uma tarde simples, porque se acostumou a ter tudo.

A lição que eu tiro não é abrir mão das conquistas nem fingir que dá para voltar no tempo. É agradecer a Deus por cada uma delas e não deixar que o costume apague a capacidade de se encantar. É lembrar do menino da beira do rio em Poço Fundo, que era feliz com um anzol, uma canoa, um som alto, os amigos por perto e uma tarde inteira ao lado do avô, e não deixar que ele morra dentro de mim.

Se eu não posso parar a bola de neve, posso ao menos, de vez em quando, descer dela. Desligar o celular, pegar uma vara de pesca e passar uma tarde inteira com meu filho sem olhar o relógio.

Porque, no fim, rio ou represa, a água é a mesma. O sol é o mesmo.

O que muda é quem aprendeu a aproveitar.

E você: em qual margem da represa você está hoje? E, mais importante, está aproveitando a vista?

Se esta reflexão fez sentido para você, compartilhe com alguém que precisa lembrar do valor das coisas simples.

Diego Ciatos é empresário, escritor e CEO do Grupo Ciatos, em Belo Horizonte/MG. Escreve sobre estratégia, patrimônio e as escolhas por trás de uma vida bem construída. Saiba mais em www.diegociatos.com.br.

Construir patrimônio também é escolher como viver

Crescer com segurança é o que permite, um dia, desacelerar sem quebrar. Se você quer estruturar o seu patrimônio para viver melhor as coisas que importam, vamos conversar.

Solicitar avaliação estratégicaFalar no WhatsApp